11.11.2009

Eu gostei do apagão!

Por volta das 22h30 da noite de ontem, eu estava no centro do Rio de Janeiro, a caminho de casa, depois de uma breve chuva refrescante.
De repente, um pisca pisca, e pronto, apagão! Em princípio, achei que seria mais um desses blackouts rápidos e ligeiros, mas não foi. Sem saber de nada, segui minha viagem, tranquila e calma, sem ao menos imaginar que o súbito breu causaria tanta repercussão na minha cidade e em mais nove estados do Brasil.
Chegando em Jacarepaguá, bairro que moro, nem uma luzinha pra iluminar minha caminhada do ponto de ônibus até ao meu prédio. Confesso que senti um certo pavor, medo, algo estranho. Mas tomei um fôlego de coragem e caminhei.
Não vou narrar com detalhes toda a dificuldade que passei pra subir 4 andares no escuro, depois enfiar a chave na fechadura e enfim me sentir segura. Até porque, o objetivo deste relato não é mostrar as dificuldades.
O que quero dizer é o seguinte: AMEI O APAGÃO. Por diversos motivos.
Foi maravilhoso olhar pela janela e perceber a completa ausência de aparelhos de televisão ligados num raio de muitos quilômetros. Ninguém gritando gol, ninguém chorando o drama da novela que reconta a mesma história pela enésima vez. Nenhum jornalístico televisivo anunciando em tom dramático notícias horrendas escolhidas a dedo para instilar o mais absoluto pavor nas mentes de todos. Ninguém fazendo da televisão uma companhia permanente, repetindo de tal forma o hábito a ponto de torná-lo um vício. Ninguém sacudindo a perna, esperando ansioso o intervalo comercial para fazer xixi.
Silêncio, que beleza!
Eu estava sozinha em casa, e na verdade, gostaria de ter vivido essa experiência do silêncio raro, acompanhada da minha família, ou amigos. Para que pudessemos conversar, sem iterrupções.
Lembrei das vezes em que na infância, ficamos sem luz lá em casa, e brincavamos de qual é a música, adedanha de dedinhos, falamos de sonhos e vontades. Morriamos de rir, contando piadas. Que delícia.
Durante o apagão de ontem, pensei que nos apartamentos em volta, as pessoas deveriam estar conversando em tom de voz adequado e imaginei os pais dialogando com seus filhos, algo que talvez não ocorresse desde… quando, mesmo?
Tenho para mim que o Criador, em sua infinita sutileza, causa periodicamente essas interrupções elétricas a fim de generosamente nos oferecer oportunidade de lembrar que não existimos para passar a vida diante da televisão. Vida não é o que aparece na tv nem o que acontece às pressas durante os comerciais. Viver é muito mais.

A vida sem televisão é incomparavelmente melhor.

11.09.2009

Quem dera...

Eu consegui ser jornalista em 6 anos =)

Sem vírgulas

Não tenho tempo a perder por favor quando chegar esteja inteiro ocupe espaço e seja pleno me impeça de pensar no amanhã e em outras tarefas suspensas me traga pro agora daquele momento onde você mora me faça esquecer o cansaço me traga um abraço me fale de coisas que há tempos não nos permitimos fazer e me convença a transgredir a hora de dormir como boa-moça que nunca fui e estou me dê um porre acenda todos os meus cigarros e me ache bonita me fale sobre as gostosuras da vida esqueça os pronomes começando as frases que nos despejamos quando entusiasmados e cheios de assunto depois se cale e me ponha a dançar me faça chorar me lembrando que estou pura razão me incentive a querer mudar me relembre essa dádiva de cama-leoa me ajude a fazer as malas me tire de casa me convença a trancar a porta por fora me mande embora dessa covardia me traga de volta praquele meu sonho bonito.
Me traga: de novo fumaça, etérea, no espaço, sonora... de novo tão livre, tão solta.

E faça amor comigo sem pressa.Com todas as vírgulas que ignoramos.

Marla de Queiroz*

10.28.2009

NÃO ou SIM?

Hoje eu percebi como tenho dificuldade em dizer NÃO!

Na verdade, eu já sabia. Desde a adolescência, tenho a fama de furona, porque marco com mil e uma pessoas ao mesmo tempo, e como sou apenas uma, acabo não comparecendo a todos os compromissos.

Tá certo que de um tempo pra cá, tenho tentado mudar este costume adiquirido, não por mal, mas pela dificuldade de negar um convite de amigos queridos. Por tentar agrada-los, deixando no ar o meu possível aparecimento ou o um súbito interesse em algum programa. Agindo assim, acabei causando chateações, mágoas, enfim, problemas...

Lembrei disso agora, por antes, tentar lembrar da última vez que disse um NÃO de verdade.
Mas não aquele NÃO fácil demais, e sim daquele NÃO proclamado em respeito à minha opinião, à minha vontade e aos meus limites. Sabe aquele NÃO firme, sem vacilo, e contudo, cheio de carinho? ou aquele nananinanão dito com propriedade a alguém que se acostumou demais ao sim?

Pois é, confesso: faz tempo que não digo!

Todo não, assim como todo sim, tem seu preço. A diferença é que o não costuma ser pago à vista, enquanto o sim acaba sendo quitado em prestações, geralmente em mais vezes do que se pretendia. Um costuma ser mais em conta que o outro, embora isso dependa da lógica do mercado, que às vezes não tem lógica alguma.

É o sim quem torna oficial – e presunçosamente eterno – um amor. Mas é o não quem decreta seu fim. O sim é quase uma promessa de vida no coração. O não são as águas de março que fecham o verão. Juntos, os dois movem o mundo.

Na semana ainda na metade, pense nisso. Vale tudo para descobrir com quantos nãos se faz um sim, e quantos sins estão por trás de um bom não. Só para saber qual dos dois irmãos tem tomado mais conta de você. Pelo sim, pelo não.

Certinhos


Há algo de enfadonho e perigoso nas pessoas muito certinhas. Naquelas cuja fala não tem graves nem agudos, só médios. Nas que nunca desafinam, e ficam sem saber dos acordes interessantes que podem existir entre uma dissonância e outra.

Pessoas retas demais, dessas que parecem ter quatro lados idênticos, não encaram uma curva do meio do caminho. Mas também jamais derrapam. O que poderia, de vez em quando, levá-las a lugares inesperadamente bons.

É preciso cuidado com pessoas que nunca gritam. Que jamais arriscam um palavrão. Um bom palavrão na hora certa é bálsamo para o coração em ebulição.

Levante a mão quem já foi assim.

Pessoas exageradamente arrumadas são viciadas no ton sur ton. Estão sempre a salvo, protegidas do erro. Contam com a aprovação do bando, mas acabam por se mesclar com qualquer fundo, qualquer estampa. Ficam invisíveis. E como geralmente não lembram onde puseram suas cabeças, precisam de alguém que as ajude a encontrá-las depois.

Dá vontade de suspirar ver sapato combinando com cinto. De desanimar de vez, se bolsa ou gravata entram no arranjo. Quem faz isso destoa é do mundo, incerto e múltiplo por definição.

Não existe graça alguma em quem não quis, ao menos uma vez na vida, morrer de amor. E não pode haver verdade em alguém que nunca contou uma mentirinha sequer.

Deve-se desconfiar de quem tem sala de estar igualzinha à da revista de decoração. De quem não tem pelo menos um armário bagunçado. De quem tem criança e não tem brinquedo espalhado pela casa. De quem faz tudo certo no trabalho.

Quem é assim, levante a mão. Se for capaz.

Divertido mesmo é quem divide, provoca, bota pra quebrar. Quem não vibra no uníssono do bom senso comum. Quem ama alto e chora mais alto ainda. Quem faz, todos os dias, alguma coisa de um jeito diferente.

Para ficar mais interessante (desde que não comprometa saúde, segurança ou sentimento dos outros), gente precisa ter, vez por outra, um quê de desatino, uma pitada de desequilíbrio, um desejo de contravenção, uma certa dose de malandragem. Senão, lá na frente, não terá valido a pena.

Agora, vamos lá. Levante a mão quem um dia quer ser assim.

A besta

“Descer do pedestal protetor e jogar na roda o que se tem de melhor, além de generoso, é excelente medicina contra a arrogância das bestas (e da besta que vive em mim).”

Citação

"Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço."

Ítalo Calvino, Cidades Invisíveis.

10.02.2009

Rio 2016, a piada da vez!

Neste momento, milhares de brasileiros estão comemorando a vitória do Brasil por ser o país escolhido para sediar os jogos olímpicos de 2016.

É, milhares de brasileiros, cariocas, paulistas, mineiros, pernambucanos, capiXabas, que ao longo dos anos, reclamam...

Reclamam da falta de segurança, de saneamento básico, eduação, saúde, enfim, reclamam das condições de vida de um povo que merece muito mais.

Mas será que merece mesmo?

Cidadãos que por hora conseguem abstrair que vivemos num país onde crianças morrem desnutridas, ou nas filas de hospitais por falta de atendimento, onde não temos o minimo de segurança e moradia dignas, onde as escolas estão falidas e o desemprego cresce cada vez mais.

Será que temos motivos para comemorar um festival de projetos equivocados, que tornarão o espaço urbano cada vez mais segregado e a cidade toda num verdadeiro canteiro de obras mal acabadas?

E a especulação imobiliária? merece comemoração?

Ah, e as verbas destinadas aos estádios e acomodações de luxo para as delegações? ah isso, sim, merece uma festa!

O trânsito caótico merece um brinde... licitações compradas, ô, nem se fala...

Bom, podem me chamar de ranzinza, pessimista, estraga prazer, não me importo, sou mesmo.

Só acho que uma cidade onde existe um déficit habitacional sinistro, não tem condições de sediar um evento desse porte.

Ficaria horas citando todas as mazelas e o que eu acho desse circo patético que montaram pra fazer a gente esquecer dos palhaços do senado, do idiota de um prefeito que se julga bom político e administrador por causa do choque de ordem.

O pior é que quase todos acreditam ter motivos pra ser o povo mais feliz do mundo...

Observando tudo isso, relembro aquele velho ditado: "Cada povo tem o que merece".

Viva! vamos ver quanto tempo teremos pra desfazer as cagadas de 2016!

9.29.2009

MAPA DA MINA!

Na porta do hall que dá nos interiores do meu coração
tem uma moça com uma lança na mão.
Quem chega não pode entrar assim desastrado
ter acesso ao palácio
ao segredo diário
ao doce difícil apiário de sua função
Pode não.
Na frente tem um jardim
depois a sala de estar
que é também a da espera.
Lá tem um bar pra quem quiser beber
tem até um sumiê
que é pra derreter a gente.
Ardente, lá tem instalado
um ar condicionado a arejar
que é pra disfarçar a quentura que vem de dentro.
Na divisa do corredor
em cima do gongá
tem um andor
com uma guerreira treinada pra fazer alguns testes
que é pra ver quem merece entrar
conhecer, se esparramar
Tem teste de olhar
Tem prova de fogo
Tem prova real
Tem a qualidade do jogo
Tem arguição geral
Tem fino escambau
portanto o paquera sala de espera
Digo pra quem ainda tá nela e já pensa que tá legal:
só passa quem exuberar fatal
ou quem conseguir ousar dela escapar.
Aquele que entrar há de tratar
de não desarrumar a mesa posta
a comida bem feira
a flor do jarro.

Tudo é muito custoso
por isso caro
Tudo é pouco e virtuoso
por isso cristal
Tudo é garimpado e perseverante
por isso diamante
por isso avante mas não repuxe o tapete
nem jogue cinzas no canto

O bem vindo há de chegar e incensar
Se sair, que ao sair deixe tudo no lugar.
Se ficar, há que construir mais uma sala,
em vez de falas,
nem que seja uma puxada lá atrás.
Mas faça carinho nos móveis:
lá tudo é vida
ali tudo respira sangue e sentimento.
Por isso a guerreira precisa barrar os nojentos
os vampiros peçonhentos
disfarçados de príncipes.
Ó, é muito simples, como entrar numa floresta.
Isso é aviso, é instrução
isso é precaução de coração vivido
onde tantas vezes o penetra deixou a porta aberta
e destruição no rastro do tesão.
Hoje, fruta esperta, projeto o quintal.
E se faço esse escarcéu, na portaria
não é nem por ser convencida, mulher superior
rainha metida à beça ou raivosa cadela.
Se faço isso e vivo na cautela,
é que sou muito amiga dela.

Poema de Elisa Lucinda*

9.03.2009

Eu já vi!

Eu amo o Leonardo Boff, sempre leio alguns textos que estão espalhadas pela internet.

Hoje recebi um pedacinho de uma entrevista, por e-mail, que consegue sintetizar exatamente o que sinto em relação a Deus. E isso é tão bom...


Chico Vasconcellos - Como é, você já viu Deus, como é Deus?

Leonardo Boff - Acho que a gente vê com os olhos interiores. Talvez a gente não veja, mas sinta Deus. Acho que toda vez que a gente sente entusiasmo, de levantar de manhã e ter de começar o dia, ter capacidade de estender a mão ao outro... Deus não é um objeto, não é uma entidade, é uma suprema paixão, suprema energia, o que os gregos de uma maneira genial disseram e eu gostaria de dizer, porque ela está presente em nossa língua, que é a palavra "entusiasmo". Em grego, entusiasmo significa ente os mos "ter um Deus dentro". Então, todo o entusiasmo é a essência da vida, é a energia que faz a vida viver. Creio que é essa realidade que penetra em tudo e não se deixa captar, e sem a qual não entendemos nosso vigor, nossa esperança, nosso sonho, nosso entusiasmo, que escapa continuamente e, ao mesmo tempo, nos desafia pra frente e pra cima. Penso que isso é Deus. E cultivar esse espaço, manter a devoção, manter o encantamento e deixar que isso se irradie é obra de alguém que é inteiro. Porque, como disse Santa Teresa, quando se trata de comer galinhas, então comer galinhas, quando se trata de jejuar, então jejuar, quando se trata de lutar ao lado dos sem-terra, lutar com os sem-terra, quando se trata de escrever um artigo, ser inteiro na escritura do artigo. Acho que essa capacidade é aquilo que é a ressonância, que é o resultado da presença secreta, sutil, dessa paixão, desse fogo interior, que nós chamamos Deus.



8.31.2009

Dia de Mafalda!

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